quinta-feira, 26 de maio de 2011

Morte na USP

Li e ouvi muita coisa sobre a morte do aluno da FEA-USP em um assalto semana passada na Cidade Universitária, aqui em São Paulo. Porém, uma das declarações que mais me chamou a atenção foi publicada no “Painel do Leitor”, da Folha de São Paulo. Seu autor é professor da mesma instituição de ensino, só que do campus USP de Ribeirão Preto. José Marcelino de Rezende Pinto, diz: “A PM já circula pela USP e isso não impediu a morte do aluno da FEA. O reitor vê grupelhos que impedem a vinda da PM. Nada mais “anos 60” do que isso. Parece que nem a polícia nem as autoridades da USP estão preparadas para lidar com os problemas de segurança. Será que a solução não está no próprio conhecimento produzido pela USP?
Muito intrigante esse comentário. Porém temos que analisá-lo em partes. O professor afirma que o fato da PM já circular pela universidade não muda a possibilidade da ocorrência de fatos lamentáveis como esse assassinato. Concordo com ele. A USP não é uma ilha fora do país, como muitos pensam. Ela está sujeita a rotina de acontecimentos da nossa região, sejam eles para o bem ou para mal. Se o estado é ausente em diversos setores da sociedade, na USP não é diferente. 
Quanto ao comentário sobre a posição “alá” anos 60 do reitor da USP, também concordo com o professor. A postura do reitor em considerar que a presença permanente da força militar estadual em suas dependências seja interpretada mais como um fato político do que de segurança pública acaba sendo cínica. Pois na maioria das vezes quando há manifestações de estudantes no campus esse reitores são os primeiros a mandar a PM invadir e soltar o porrete na turma, como ocorreu ano passado. Em meu modo de ver a polícia brasileira sempre foi mais eficaz em coibir eventos da massa, do que protegê-la, com estratégias de segurança que respeitem a integridade do cidadão. Além do mais, enquanto houver essa absurda desigualdade entre classes podemos ter o exército Israelense nas ruas brasileiras que ainda assim viveremos em clima de insegurança. 
Pois bem, o professor termina seu posicionamento com uma ótima pergunta. Será que a solução não está no próprio conhecimento produzido pela USP? Ao meu modo de ver a resposta para essa pergunta é que o conhecimento no Brasil está a serviço do setor privado e a classe acadêmica não tem forças nem unidade para impulsionar mudanças na máquina pública. Ou seja, as soluções para os problemas do nosso país não levam em consideração a posição de quem produz o conhecimento e sim de quem somente é capaz de produzir popularidade. Pense nisso. Até a próxima semana!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Diploma para Jornalistas

Certa vez uma pessoa, sabendo que eu era formado em Jornalismo, me perguntou sobre o fato de, na época, em 2009, o Supremo Tribunal Federal Brasileiro ter decidido que o diploma de jornalismo não é mais obrigatório para o exercício dessa profissão. Como já tinha minha opinião formada sobre o assunto, resolvi não expressá-la e a respondi com outra pergunta: o que você acha sobre essa decisão? Depois de pensar alguns segundos, veio a resposta: “Entendo que é democrático, todas as pessoas terem o direito de trabalhar em um veículo de comunicação e poderem manifestar suas idéias”. Logo, essa pessoa ficou me olhando e esperando a minha resposta.
Entendo o posicionamento dela que defende a liberdade de expressão da maioria, mas saliento que os jornais, jornalistas e outros veículos que compõem a imprensa, são os que menos gozam dessa chamada liberdade. As pessoas que prezam pelo bom jornalismo precisam ter o “rabo preso”, em primeiro lugar, com os valores éticos. Quando se pede liberdade de Imprensa, se almeja liberdade humana. Não se pode confundir liberdade de expressão com Jornalismo. O Jornalismo é um formato de linguagem preso a credibilidade dada pelo seu público. Isso não é liberdade. Quando na Ditadura os Jornais clamaram por liberdade, não foi por qualquer tipo de liberdade, mas sim a de Imprensa, que é diferente. A Imprensa precisa ser livre para poder se prender aos interesses do homem, assim para poder ajudar a torná-lo pleno, questionador, capaz de optar por um futuro melhor.
A passagem de um profissional jornalista pela Universidade não pode ser descartada, pois é o mesmo que desacreditar todo o modelo de ensino que temos hoje. O jornalismo é um método científico baseado na linguagem, ou seja, na comunicação, criado para sustentar o padrão de vida da sociedade moderna. Os cursos de jornalismo representam, ou deveriam representar, locais destinados ao desenvolvimento humano, para o livre debate de conceitos da comunicação, de ideais sociais e democráticos e para o aperfeiçoamento de métodos de ação na sociedade. Logo, o profissional formado, e que tem ciência da importância de sua função, terá melhores condições de produzir notícias. Isso não quer dizer que outras pessoas não teriam a capacidade de exercer essa função, mas entendo que, não é por que li livros de Freud e Jung e por que sou sensível a comportamento humano, que posso começar a dar seções de terapia.
Quando relembro essa decisão do STJD e a trago para ser debatida em meu texto, o faço pensando que ela ultrapassa qualquer problema de cunho profissional ou pessoal. Quando falamos em Jornalismo precisamos entender a sua importância em nossa sociedade. O jornal, seja ele no Rádio, na TV, na Internet ou Impresso, ainda representa uma das formas mais importantes de se sustentar um regime democrático de um país. Afinal, como teríamos a noção que temos hoje do que acontece nos mais diversos lugares do mundo, na sede do governo em Brasília, no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo ou na prefeitura de Osasco, se não tivéssemos a Imprensa que temos? Mesmo com todas as suas imperfeições. Pense nisso! Até a próxima semana.

domingo, 15 de maio de 2011

“Coaching”

Quem convive no ambiente corporativo já deve ter feito algum curso ou ouvido falar de uma forma de gestão de pessoas chamada “Gestão Coaching”. Quando falamos em gestão de pessoas nos referimos a uma forma como um profissional lidera uma equipe dentro de uma empresa ou em um expediente público. A palavra Coaching não tem ainda tradução para Português, ela é uma palavra inglesa derivada de Coach (técnico), como os de futebol. O coach para as empresas é o gestor que promove a chamada “Liderança Motivacional”, onde sua figura tem a responsabilidade de fazer com que pessoas se desenvolvam por si só, de acordo com suas características, habilidades ou dificuldades, sempre em busca dos resultados perseguidos pela empresa.
Pois bem, durante um bom tempo acompanhei diversos treinamentos sobre esse tipo de gestão, ministrado por diversos tipos de especialistas, e o que me chamava atenção eram os relatos dos participantes dizendo que na teoria esse modelo de liderança era muito bom, mas que boa parte deles convivia com gestores que já haviam feito cursos parecidos, mas que no dia a dia, eram extremamente parciais perante os funcionários, centralizadores e autoritários.  
O Coaching, me parece, foi criado pelas empresas para quebrar a autoridade dos antigos “Chefes”, “Patrões”, que muitas vezes conseguiam o resultado, mas deixavam sua equipe esfacelada, desmotivada, geravam medo em seus funcionários e, por isso, começaram a dar prejuízo ao longo do tempo. O problema é que a lógica do mercado de hoje não permite que esse modelo de gestão se realize.  É muito difícil para um gerente respeitar as diferentes características de cada membro da equipe tendo a corda no pescoço todos os dias. Nessa lógica, quanto mais o ambiente for homogêneo mais confortável será a vida desse líder. 
Ao participar desses debates comecei a analisar os meus líderes e percebi que nenhum deles conseguia se aproximar do modelo de Coaching. Não por que eram maus gestores ou por que uns eram mais eficientes no trabalho do que outros, mas por que todos eles tinham algo em comum, sofriam uma enorme pressão por parte da empresa para atingir suas metas. Dessa forma, a meu ver, quando a busca por resultados é o lema, o que não é exceção no mercado de hoje, cada um se segura como pode. Quem é bom aos olhos do gerente, age como ele, do modo dele e não questiona os seus métodos, será um profissional com perfil para atuar naquele setor, ainda mais se o gerente conseguir atingir suas metas, aí sim o grupo estará fechado. 
Ainda há de vir, num futuro, espero que não muito distante, líderes de equipe que consigam ser leais às diferenças e capazes de desenvolver o potencial da maioria de seus funcionários, sem privilegiar um ou outro por simples afinidade. Enquanto isso ao invés de “Coachings” conviveremos com os “Chefenigs”, com o perdão pelo trocadilho. Pense nisso! Até a próxima semana.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

“As Mães e o Trabalho”

Maio é o mês em que comemoramos o dia do Trabalho e das Mães, e para não cair no discurso comum que boa parte da mídia ecoa nessa época, resolvi falar dessas datas de uma forma diferente: fazendo uma análise de um filme que assisti há dois meses atrás, chamado “Simplesmente Complicado” (Esse foi o nome anunciado na TV), com os atores Alec Baldwin e Meryl Streep. 
Assim como seu título, o filme não é lá “aquelas coisas”, porém em determinado momento, sugere, mesmo que de forma não aprofundada, temas que mostram situações vividas por muitas mulheres hoje, nesse caso, mães, sua relação com o trabalho, marido e filhos. Desculpem-me, mas copiei a sinopse do filme para contextualizar minha explicação: Jane e Jake (interpretados pelos atores citados anteriormente) já estão divorciados há dez anos. Um encontro casual durante a formatura do filho do casal os reaproxima, dando início a um novo relacionamento entre os dois. O problema é que Jake está casado com outra mulher e Jane está se interessando por seu arquiteto.  
Até ai o enredo não inspira muita coisa. O que chama a atenção no filme é a comparação entre dois modelos diferentes do que é ser “mãe”. De um lado Jane, uma sessentona, mãe de três filhos já adultos e dona de uma linda confeitaria. Essa personagem seria considerada o “modelo” de mãe, daquelas a moda antiga, que gostam de cozinhar, cuidam muito bem de casa e tem os filhos em baixo das asas. Do outro lado, a atual esposa de Jake, uma moça jovem, bonita, inteligente, estudada, com emprego e vida financeira independente, mas que carrega as mazelas de um comportamento comum a muitas mulheres hoje: é consumista, vive viajando, não gosta de cozinhar e mima mais do que cuida do filho. Dessa forma, Jake se vê obrigado a ter que escolher entre ficar com a sua esposa ou sua ex, Jane, atual amante. O resultado dessa escolha eu deixo para quem for assistir ao filme.
Pois bem, não sou eu quem vai dizer qual desses dois modelos de mães seria o ideal, apesar de o filme dar a entender, como uma forma de resgate de valores perdidos, de que o de Jane seria o melhor. O certo é que em muitos casos o papel de mãe por si só tem perdido o seu significado. Muitas mulheres têm aceitado o fato de que além de serem mães (O que é uma tarefa extremamente difícil e digna de imenso valor) ainda precisam ser boas profissionais e ótimas donas de casa, tudo ao mesmo tempo. Parece-me que o importante nesse momento é as mulheres analisarem os rumos pelos quais esse padrão de vida pode levá-las. E perceber que a natureza feminina, nesse caso, tem entrado em constante conflito com os anseios da cultura moderna. O sexo feminino, pela possibilidade de ser gestante da vida, clama pelo sentimento de afeto humano, pelo carinho e não pode se perder pelas adversidades de uma sociedade que prega a competição e o individualismo. Pense nisso! Bom trabalho e feliz dia das mães. Até a próxima semana.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

“O gosto e a Indústria Cultural”

Sempre ouvi dizer que “gosto não se discute”, que é algo individual, cada um nasce com o seu. Porém, certo dia, em uma aula de Antropologia, meu Professor Ronaldo Arnoni, nos disse que Cultura se aprende, que os gostos são moldados durante nossa existência de acordo com aquilo que presenciamos, sentimos e experimentamos no ambiente em que vivemos. Que para a Antropologia não existe determinismos biológicos, ou seja, ninguém tem um gosto refinado e sabe degustar as coisas boas da vida por que nasceu assim, isso seria um pensamento preconceituoso, que remete a cultura hierarquizada por raças, assim por diante. 
Hoje me parece exagerado o contato que parte da sociedade tem tido com veículos de comunicação que fazem parte da Indústria Cultural. Sendo assim, entendo ser pertinente analisar como esse ambiente vem influenciando o gosto das pessoas. Muitos se encantam hoje com a possibilidade de ter a TV, o rádio, os jornais e a internet, tudo por meio do celular. Dessa forma, podem utilizá-los no trem, na padaria, no mercado ou em qualquer outro lugar. Para essas pessoas, esse contato com a cultura industrializada tem sido algo extremamente intenso.
A indústria cultural é composta por empresas que produzem bens culturais em larga escala, para vendê-los no mercado em troca de audiência. Quando assistimos a um programa de Televisão, lemos uma notícia no jornal, um livro, ou ouvimos um programa de rádio, estamos comprando esses produtos dessa indústria. Seguindo essa lógica, uma novela torna-se tão produto quanto um sabonete, apesar de tratar de temas que de “certa forma” estão relacionados à nossa vida. Como exemplo, quando ligamos a TV e optamos por um programa e não pelo outro, damos ao canal escolhido a oportunidade de nos expor os produtos de seus anunciantes, de nos mostrarem as suas marcas. Esses anunciantes, é claro, pagarão mais caro para anunciar seus produtos nos horários dos programas mais vistos. 
O problema é justamente esse, quando tratamos a cultura como mercado precisamos esvaziar a complexidade dos seus conteúdos, simplificar o raciocínio, diminuir ao máximo a dificuldade de entendimento do produto, para que a maioria das pessoas possam ter acesso a ele. Um produto complicado, de difícil manuseio, não vende. Pensemos em um celular em que precisássemos fazer um curso para podermos manuseá-lo, certamente seria um fiasco de vendas. 
Dessa forma, se a maioria dos produtos culturais são simples, boa parte do gosto popular também é. Muitos sabem distinguir o bom produto do ruim, mas vivem na passividade. A maioria vive sem exigências, sem causas nobres a serem requeridas. Sem falar no contexto de como a cultura é produzida atualmente. Que tipo de arte pode ser gerada por um trabalhador que passa maior parte do seu tempo gastando suas forças no trabalho industrial? Como a maioria poderá produzir cultura de qualidade ou pensar em algo que não esteja relacionado ao consumo, se suas vidas são dedicadas a produzir bens de consumo e, nos momentos de folga, impelidos a consumi-los? Assim funciona o sistema... Por isso, busque cultura fora do “convencional”, longe do “simples”, distante do “comum”, aprimore seu gosto, seus critérios, faça a diferença! Pense nisso! Até a próxima semana. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

“Comunicação Eficaz”

Há uma máxima na Comunicação que diz que quando emitimos uma mensagem a alguém somos os responsáveis em fazer com que aquela pessoa entenda o que queremos transmitir. Entretanto, nem sempre conseguimos alcançar nossos objetivos na Comunicação e nem mesmo os mais renomados escritores às vezes conseguem. Lembro-me de um episódio em 2002 em que o escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo ao escrever uma belíssima crônica intitulada “Audácia”, para o Jornal “O Globo”, teve que pedir desculpas publicamente a seus leitores por não ter sido “claro” em seu texto. O “mal entendido” literal fez com que Veríssimo fosse acusado de racismo e preconceito, apesar de ter escrito um dos textos mais inteligentes que já li.
Sua crônica retratava a visão de parte da elite aristocrata brasileira comentando o fato de Lula ao ter sido flagrado tomando um vinho francês chamado Romanée-Conti, que custa mais de R$10.000,00 a garrafa, as vésperas do que seria a sua primeira vitória nas eleições para presidente do Brasil. Veríssimo se vale em seu texto de Ironia, um instrumento de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, ou seja, sua expressão, apesar de parecer racista e preconceituosa, tinha a intenção de ser justamente o contrário, pretendia reproduzir o pensamento de boa parte de uma classe social que merecia tais adjetivos. 
Vou reproduzir alguns trechos desse texto para me fazer entender melhor: “Quem o Lula pensa que é, tomando Romanée-Conti? Gente! O que é isso? Onde é que estamos? Romanée-Conti não é pro teu bico não, ó retirante. Vê se te enxerga, ó pau-de-arara. O teu negócio é cachaça. O teu negócio é prato-feito, cerveja e olhe lá. A audácia do Lula!”/ “Está bom, foi só um gole. Mas é assim que começa. Hoje tomam um gole de Romanée-Conti, amanhã estão com delírio de grandeza, pedindo saneamento básico, habitação decente, oportunidade de trabalho e até - gentinha metida a grande coisa não sabe quando parar - mais saúde pública, mais igualdade e caviar. /“Sim, porque hoje é Romanée-Conti e amanhã pode ser até a Presidência da República. Gentinha que não conhece o seu lugar é capaz de tudo”.
É intrigante saber que Veríssimo teve que pedir desculpas por escrever um grande texto como esse, de humor refinado e de uma crítica social apurada. Quando pediu desculpas aos leitores, o escritor assumiu, mesmo a contragosto, imagino, o erro de comunicação que cometeu: o de não conseguir abarcar o entendimento da maioria de seus leitores. 
Mesmo sabendo que vivemos em uma sociedade tão desigual culturalmente, com níveis de entendimento tão diversos, as máximas da Comunicação ainda se mostram impiedosas. Por isso, o grande desafio de quem pretende se expressar em público será sempre o de ser entendido pela maioria. Pense nisso!Até a próxima semana.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

“Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social”

Certa vez, ao assistir uma palestra sobre Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social promovida pelo Banco no qual trabalhei, alguns pensamentos sobre a relação das empresas com esse assunto começaram a me incomodar. A palestra foi conduzida por um Engenheiro Ambiental que incitava a platéia dizendo a todo o momento que temos responsabilidade perante o assunto e relatava em seu discurso as ações que o Banco realizava, mantendo uma fundação com fins educacionais e que buscava novas ações sociais baseadas em projetos de voluntariado, utilizando funcionários como agentes. 
Em determinado momento da palestra não me contive, levantei o braço e num auditório lotado, disparei minha inquietante pergunta, aquela que foi na contra mão do assunto, e lá fui eu: “Pelo que vejo, nossa empresa está engajada com as causas da Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social. Sendo assim, ela se preocupa com o meio ambiente, a natureza e a qualidade de vida das pessoas. Dessa forma, gostaria de saber se existe alguma política interna para a redução da oferta de crédito bancário para empreendimentos que prejudiquem diretamente o meio ambiente? Como reduzir o incentivo ao financiamento de automóveis ou o crédito ao Agronegócio, já que essas são duas das áreas produtivas mais apontadas por pesquisadores como responsáveis pelo aquecimento global.” 
Ao terminar minha pergunta, percebi um silêncio enorme na sala, seguido de risos e de olhares que diziam que minha colocação afetava tudo aquilo havia sido dito até aquele momento. A resposta que obtive é que o Banco não poderia mudar sua forma de atuação no mercado e que buscava encontrar alternativas para contribuir com a questão ambiental dentro das práticas do mercado financeiro. Minha dúvida com a pergunta era como alguém pode ter uma postura Ética se sua ação social por um lado auxilia a população com a educação e por outro lado estimula o consumo desenfreado e tão nocivo a natureza? 
Para aumentar minha inquietação com o assunto, verifiquei que o departamento designado para cuidar das questões do Banco relacionadas à Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social chamava-se “Departamento de Relações com os Clientes”, o que me remete a uma contradição, pois entendo que esses assuntos não dizem respeito ao relacionamento da empresa com o cliente e sim da empresa com a sociedade. Essas ações, no sentido mais amplo do conceito de Ética, transcendem as relações de mercado. 
Pois bem, para mim o saldo positivo dessa palestra foi que percebi que esse modelo de pensamento das empresas deverá sofrer alterações de acordo com as mudanças ocorridas em nosso dia a dia, esperamos que isso não ocorra tarde demais. Já o saldo negativo, foi que conclui que o discurso de muitas empresas infelizmente está bem distante da verdadeira Ética, que pretende pensar e estabelecer ideais humanos e de uma vida melhor a todos, independentemente dos comportamentos volúveis que o homem pode ter enquanto um ser moral. Por isso, é importante que repensemos nossos papeis na sociedade como trabalhadores e agentes sociais e cobremos das empresas e do governo ações que venham realmente melhorar a nossa vida. Pense nisso! Até a próxima semana.