Há uma máxima na Comunicação que diz que quando emitimos uma mensagem a alguém somos os responsáveis em fazer com que aquela pessoa entenda o que queremos transmitir. Entretanto, nem sempre conseguimos alcançar nossos objetivos na Comunicação e nem mesmo os mais renomados escritores às vezes conseguem. Lembro-me de um episódio em 2002 em que o escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo ao escrever uma belíssima crônica intitulada “Audácia”, para o Jornal “O Globo”, teve que pedir desculpas publicamente a seus leitores por não ter sido “claro” em seu texto. O “mal entendido” literal fez com que Veríssimo fosse acusado de racismo e preconceito, apesar de ter escrito um dos textos mais inteligentes que já li.
Sua crônica retratava a visão de parte da elite aristocrata brasileira comentando o fato de Lula ao ter sido flagrado tomando um vinho francês chamado Romanée-Conti, que custa mais de R$10.000,00 a garrafa, as vésperas do que seria a sua primeira vitória nas eleições para presidente do Brasil. Veríssimo se vale em seu texto de Ironia, um instrumento de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, ou seja, sua expressão, apesar de parecer racista e preconceituosa, tinha a intenção de ser justamente o contrário, pretendia reproduzir o pensamento de boa parte de uma classe social que merecia tais adjetivos.
Vou reproduzir alguns trechos desse texto para me fazer entender melhor: “Quem o Lula pensa que é, tomando Romanée-Conti? Gente! O que é isso? Onde é que estamos? Romanée-Conti não é pro teu bico não, ó retirante. Vê se te enxerga, ó pau-de-arara. O teu negócio é cachaça. O teu negócio é prato-feito, cerveja e olhe lá. A audácia do Lula!”/ “Está bom, foi só um gole. Mas é assim que começa. Hoje tomam um gole de Romanée-Conti, amanhã estão com delírio de grandeza, pedindo saneamento básico, habitação decente, oportunidade de trabalho e até - gentinha metida a grande coisa não sabe quando parar - mais saúde pública, mais igualdade e caviar. /“Sim, porque hoje é Romanée-Conti e amanhã pode ser até a Presidência da República. Gentinha que não conhece o seu lugar é capaz de tudo”.
É intrigante saber que Veríssimo teve que pedir desculpas por escrever um grande texto como esse, de humor refinado e de uma crítica social apurada. Quando pediu desculpas aos leitores, o escritor assumiu, mesmo a contragosto, imagino, o erro de comunicação que cometeu: o de não conseguir abarcar o entendimento da maioria de seus leitores.
Mesmo sabendo que vivemos em uma sociedade tão desigual culturalmente, com níveis de entendimento tão diversos, as máximas da Comunicação ainda se mostram impiedosas. Por isso, o grande desafio de quem pretende se expressar em público será sempre o de ser entendido pela maioria. Pense nisso!Até a próxima semana.
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