Sempre ouvi dizer que “gosto não se discute”, que é algo individual, cada um nasce com o seu. Porém, certo dia, em uma aula de Antropologia, meu Professor Ronaldo Arnoni, nos disse que Cultura se aprende, que os gostos são moldados durante nossa existência de acordo com aquilo que presenciamos, sentimos e experimentamos no ambiente em que vivemos. Que para a Antropologia não existe determinismos biológicos, ou seja, ninguém tem um gosto refinado e sabe degustar as coisas boas da vida por que nasceu assim, isso seria um pensamento preconceituoso, que remete a cultura hierarquizada por raças, assim por diante.
Hoje me parece exagerado o contato que parte da sociedade tem tido com veículos de comunicação que fazem parte da Indústria Cultural. Sendo assim, entendo ser pertinente analisar como esse ambiente vem influenciando o gosto das pessoas. Muitos se encantam hoje com a possibilidade de ter a TV, o rádio, os jornais e a internet, tudo por meio do celular. Dessa forma, podem utilizá-los no trem, na padaria, no mercado ou em qualquer outro lugar. Para essas pessoas, esse contato com a cultura industrializada tem sido algo extremamente intenso.
A indústria cultural é composta por empresas que produzem bens culturais em larga escala, para vendê-los no mercado em troca de audiência. Quando assistimos a um programa de Televisão, lemos uma notícia no jornal, um livro, ou ouvimos um programa de rádio, estamos comprando esses produtos dessa indústria. Seguindo essa lógica, uma novela torna-se tão produto quanto um sabonete, apesar de tratar de temas que de “certa forma” estão relacionados à nossa vida. Como exemplo, quando ligamos a TV e optamos por um programa e não pelo outro, damos ao canal escolhido a oportunidade de nos expor os produtos de seus anunciantes, de nos mostrarem as suas marcas. Esses anunciantes, é claro, pagarão mais caro para anunciar seus produtos nos horários dos programas mais vistos.
O problema é justamente esse, quando tratamos a cultura como mercado precisamos esvaziar a complexidade dos seus conteúdos, simplificar o raciocínio, diminuir ao máximo a dificuldade de entendimento do produto, para que a maioria das pessoas possam ter acesso a ele. Um produto complicado, de difícil manuseio, não vende. Pensemos em um celular em que precisássemos fazer um curso para podermos manuseá-lo, certamente seria um fiasco de vendas.
Dessa forma, se a maioria dos produtos culturais são simples, boa parte do gosto popular também é. Muitos sabem distinguir o bom produto do ruim, mas vivem na passividade. A maioria vive sem exigências, sem causas nobres a serem requeridas. Sem falar no contexto de como a cultura é produzida atualmente. Que tipo de arte pode ser gerada por um trabalhador que passa maior parte do seu tempo gastando suas forças no trabalho industrial? Como a maioria poderá produzir cultura de qualidade ou pensar em algo que não esteja relacionado ao consumo, se suas vidas são dedicadas a produzir bens de consumo e, nos momentos de folga, impelidos a consumi-los? Assim funciona o sistema... Por isso, busque cultura fora do “convencional”, longe do “simples”, distante do “comum”, aprimore seu gosto, seus critérios, faça a diferença! Pense nisso! Até a próxima semana.