quinta-feira, 14 de abril de 2011

“O gosto e a Indústria Cultural”

Sempre ouvi dizer que “gosto não se discute”, que é algo individual, cada um nasce com o seu. Porém, certo dia, em uma aula de Antropologia, meu Professor Ronaldo Arnoni, nos disse que Cultura se aprende, que os gostos são moldados durante nossa existência de acordo com aquilo que presenciamos, sentimos e experimentamos no ambiente em que vivemos. Que para a Antropologia não existe determinismos biológicos, ou seja, ninguém tem um gosto refinado e sabe degustar as coisas boas da vida por que nasceu assim, isso seria um pensamento preconceituoso, que remete a cultura hierarquizada por raças, assim por diante. 
Hoje me parece exagerado o contato que parte da sociedade tem tido com veículos de comunicação que fazem parte da Indústria Cultural. Sendo assim, entendo ser pertinente analisar como esse ambiente vem influenciando o gosto das pessoas. Muitos se encantam hoje com a possibilidade de ter a TV, o rádio, os jornais e a internet, tudo por meio do celular. Dessa forma, podem utilizá-los no trem, na padaria, no mercado ou em qualquer outro lugar. Para essas pessoas, esse contato com a cultura industrializada tem sido algo extremamente intenso.
A indústria cultural é composta por empresas que produzem bens culturais em larga escala, para vendê-los no mercado em troca de audiência. Quando assistimos a um programa de Televisão, lemos uma notícia no jornal, um livro, ou ouvimos um programa de rádio, estamos comprando esses produtos dessa indústria. Seguindo essa lógica, uma novela torna-se tão produto quanto um sabonete, apesar de tratar de temas que de “certa forma” estão relacionados à nossa vida. Como exemplo, quando ligamos a TV e optamos por um programa e não pelo outro, damos ao canal escolhido a oportunidade de nos expor os produtos de seus anunciantes, de nos mostrarem as suas marcas. Esses anunciantes, é claro, pagarão mais caro para anunciar seus produtos nos horários dos programas mais vistos. 
O problema é justamente esse, quando tratamos a cultura como mercado precisamos esvaziar a complexidade dos seus conteúdos, simplificar o raciocínio, diminuir ao máximo a dificuldade de entendimento do produto, para que a maioria das pessoas possam ter acesso a ele. Um produto complicado, de difícil manuseio, não vende. Pensemos em um celular em que precisássemos fazer um curso para podermos manuseá-lo, certamente seria um fiasco de vendas. 
Dessa forma, se a maioria dos produtos culturais são simples, boa parte do gosto popular também é. Muitos sabem distinguir o bom produto do ruim, mas vivem na passividade. A maioria vive sem exigências, sem causas nobres a serem requeridas. Sem falar no contexto de como a cultura é produzida atualmente. Que tipo de arte pode ser gerada por um trabalhador que passa maior parte do seu tempo gastando suas forças no trabalho industrial? Como a maioria poderá produzir cultura de qualidade ou pensar em algo que não esteja relacionado ao consumo, se suas vidas são dedicadas a produzir bens de consumo e, nos momentos de folga, impelidos a consumi-los? Assim funciona o sistema... Por isso, busque cultura fora do “convencional”, longe do “simples”, distante do “comum”, aprimore seu gosto, seus critérios, faça a diferença! Pense nisso! Até a próxima semana. 

quinta-feira, 7 de abril de 2011

“Comunicação Eficaz”

Há uma máxima na Comunicação que diz que quando emitimos uma mensagem a alguém somos os responsáveis em fazer com que aquela pessoa entenda o que queremos transmitir. Entretanto, nem sempre conseguimos alcançar nossos objetivos na Comunicação e nem mesmo os mais renomados escritores às vezes conseguem. Lembro-me de um episódio em 2002 em que o escritor gaúcho Luis Fernando Veríssimo ao escrever uma belíssima crônica intitulada “Audácia”, para o Jornal “O Globo”, teve que pedir desculpas publicamente a seus leitores por não ter sido “claro” em seu texto. O “mal entendido” literal fez com que Veríssimo fosse acusado de racismo e preconceito, apesar de ter escrito um dos textos mais inteligentes que já li.
Sua crônica retratava a visão de parte da elite aristocrata brasileira comentando o fato de Lula ao ter sido flagrado tomando um vinho francês chamado Romanée-Conti, que custa mais de R$10.000,00 a garrafa, as vésperas do que seria a sua primeira vitória nas eleições para presidente do Brasil. Veríssimo se vale em seu texto de Ironia, um instrumento de retórica que consiste em dizer o contrário daquilo que se pensa, ou seja, sua expressão, apesar de parecer racista e preconceituosa, tinha a intenção de ser justamente o contrário, pretendia reproduzir o pensamento de boa parte de uma classe social que merecia tais adjetivos. 
Vou reproduzir alguns trechos desse texto para me fazer entender melhor: “Quem o Lula pensa que é, tomando Romanée-Conti? Gente! O que é isso? Onde é que estamos? Romanée-Conti não é pro teu bico não, ó retirante. Vê se te enxerga, ó pau-de-arara. O teu negócio é cachaça. O teu negócio é prato-feito, cerveja e olhe lá. A audácia do Lula!”/ “Está bom, foi só um gole. Mas é assim que começa. Hoje tomam um gole de Romanée-Conti, amanhã estão com delírio de grandeza, pedindo saneamento básico, habitação decente, oportunidade de trabalho e até - gentinha metida a grande coisa não sabe quando parar - mais saúde pública, mais igualdade e caviar. /“Sim, porque hoje é Romanée-Conti e amanhã pode ser até a Presidência da República. Gentinha que não conhece o seu lugar é capaz de tudo”.
É intrigante saber que Veríssimo teve que pedir desculpas por escrever um grande texto como esse, de humor refinado e de uma crítica social apurada. Quando pediu desculpas aos leitores, o escritor assumiu, mesmo a contragosto, imagino, o erro de comunicação que cometeu: o de não conseguir abarcar o entendimento da maioria de seus leitores. 
Mesmo sabendo que vivemos em uma sociedade tão desigual culturalmente, com níveis de entendimento tão diversos, as máximas da Comunicação ainda se mostram impiedosas. Por isso, o grande desafio de quem pretende se expressar em público será sempre o de ser entendido pela maioria. Pense nisso!Até a próxima semana.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

“Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social”

Certa vez, ao assistir uma palestra sobre Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social promovida pelo Banco no qual trabalhei, alguns pensamentos sobre a relação das empresas com esse assunto começaram a me incomodar. A palestra foi conduzida por um Engenheiro Ambiental que incitava a platéia dizendo a todo o momento que temos responsabilidade perante o assunto e relatava em seu discurso as ações que o Banco realizava, mantendo uma fundação com fins educacionais e que buscava novas ações sociais baseadas em projetos de voluntariado, utilizando funcionários como agentes. 
Em determinado momento da palestra não me contive, levantei o braço e num auditório lotado, disparei minha inquietante pergunta, aquela que foi na contra mão do assunto, e lá fui eu: “Pelo que vejo, nossa empresa está engajada com as causas da Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social. Sendo assim, ela se preocupa com o meio ambiente, a natureza e a qualidade de vida das pessoas. Dessa forma, gostaria de saber se existe alguma política interna para a redução da oferta de crédito bancário para empreendimentos que prejudiquem diretamente o meio ambiente? Como reduzir o incentivo ao financiamento de automóveis ou o crédito ao Agronegócio, já que essas são duas das áreas produtivas mais apontadas por pesquisadores como responsáveis pelo aquecimento global.” 
Ao terminar minha pergunta, percebi um silêncio enorme na sala, seguido de risos e de olhares que diziam que minha colocação afetava tudo aquilo havia sido dito até aquele momento. A resposta que obtive é que o Banco não poderia mudar sua forma de atuação no mercado e que buscava encontrar alternativas para contribuir com a questão ambiental dentro das práticas do mercado financeiro. Minha dúvida com a pergunta era como alguém pode ter uma postura Ética se sua ação social por um lado auxilia a população com a educação e por outro lado estimula o consumo desenfreado e tão nocivo a natureza? 
Para aumentar minha inquietação com o assunto, verifiquei que o departamento designado para cuidar das questões do Banco relacionadas à Ética, Sustentabilidade e Responsabilidade Social chamava-se “Departamento de Relações com os Clientes”, o que me remete a uma contradição, pois entendo que esses assuntos não dizem respeito ao relacionamento da empresa com o cliente e sim da empresa com a sociedade. Essas ações, no sentido mais amplo do conceito de Ética, transcendem as relações de mercado. 
Pois bem, para mim o saldo positivo dessa palestra foi que percebi que esse modelo de pensamento das empresas deverá sofrer alterações de acordo com as mudanças ocorridas em nosso dia a dia, esperamos que isso não ocorra tarde demais. Já o saldo negativo, foi que conclui que o discurso de muitas empresas infelizmente está bem distante da verdadeira Ética, que pretende pensar e estabelecer ideais humanos e de uma vida melhor a todos, independentemente dos comportamentos volúveis que o homem pode ter enquanto um ser moral. Por isso, é importante que repensemos nossos papeis na sociedade como trabalhadores e agentes sociais e cobremos das empresas e do governo ações que venham realmente melhorar a nossa vida. Pense nisso! Até a próxima semana.