Sempre ouvi falar que “o trabalho enobrece o Homem”. Pois bem, quando comecei a trabalhar com meus pais em uma Marcenaria ainda na adolescência, percebi que não sentia prazer algum no momento em que realizava tarefas que exigissem movimentos contínuos e repetitivos, e não o meu raciocínio ou minha criatividade. Para mim as atividades rotineiras foram sempre enfadonhas, monótonas e sem sentido, tanto que comecei a questionar-me se a frase citada sobre o trabalho era verdadeira ou se eu mesmo fazia "corpo mole”. Não entendia como podia ter aquele tipo de sentimento sendo que sempre ouvi dos meus pais e familiares, e principalmente do meu avô, que o trabalho é a melhor coisa que o homem pode ter na vida.
Como muitos dos antigos moradores de Osasco, meu avô foi metalúrgico e chefe de seção da lendária Cobrasma, uma das maiores Metalúrgicas que existiram em Osasco até a década de 1990. Depois ele foi transferido para Sumaré, interior de São Paulo, onde a empresa mantinha pólo industrial. Verifiquei que não era exagero dele, quando contava que às vezes seus turnos de trabalho eram tão extensos, em certas épocas, que chegava a entrar para trabalhar às 08h, de uma sexta-feira, e somente saía na segunda-feira após o almoço. Dizia ele que passava o fim de semana trabalhando pelas horas extras que recebia, e que chegavam a ser maiores que o seu salário no fim do mês. Fiquei por muito tempo intrigado ao pensar como uma pessoa podia ficar trancada mais de 48 horas numa empresa, sem ver praticamente o sol ou a lua, e orgulhar-se disso. Uma das frases que sempre ouvi dele era a seguinte: “O trabalho não mata ninguém. Nunca ouvi falar que alguém morreu de tanto trabalhar”, completava. Analiso essas frases hoje, depois de ter estudado, trabalhado em empresas e ter dado aula em faculdade, e percebo que em partes elas têm suas razões, porém sua afirmação não é totalmente correta, quando vermos exemplos de trabalho forçado em várias regiões do Brasil e do Mundo, e chegarmos a conclusão de que o trabalho em excesso pode matar sim ou trazer graves prejuízos a saúde.
Em outras conversas que tive com meu avô comecei a tentar tirar dele qual era a razão real que o motivava a trabalhar. Uma vez ele me contou que foi demitido pelo seu chefe e que foi um dos piores dias de sua vida. Não entendia o que havia acontecido. Chegou em casa decepcionado, tomou banho, jantou, quase não conversou com ninguém e foi dormir. Quando era madrugada, ouviu o telefone tocar e assustado foi atender: “normalmente quando o telefone toca a essa hora, é que morreu alguém”, dizia ele. Quando atendeu ouviu a voz do seu ex-chefe dizendo: “Manoel, os funcionários do turno da noite não querem trabalhar, o que eu faço”? Ele respondeu: “eu não tenho nada a ver com isso, fui demitido hoje. E o seu ex-chefe disse: “não, você não está entendo, eles disseram que se você não voltar a trabalhar e a ser chefe deles, eles também não trabalharão, farão greve. Espero você amanhã cedo para conversarmos”, desligou o telefone. No outro dia meu avô foi recontratado e trabalhou na mesma empresa até se aposentar.
Agora ao ler essa história você deve estar se perguntando o que ela tem ver com o trabalho e a realização profissional? O que eu tenho a dizer é que nessas conversas que tive com meu avô descobri que sua motivação não era o trabalho, mas sim as pessoas que lá o realizavam e sua fascinação por saber que elas são capazes de produzir maravilhas quando são tratadas com respeito e consideração. Dessa forma, percebi que a nobreza do trabalho não está em sua prática e sim nas realizações que só ele pode produzir e que se traduzem naquilo que o Homem chama de Vida. Quando estiver trabalhando, pense nisso! Até a próxima semana.
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